Alface lisa
Martha Medeiros
Eu estava no supermercado, na seção de verduras, em busca de alface lisa. Só tinha crespa. Vi um rapaz de uniforme ajeitando uns pimentões, resolvi pedir ajuda. “Moço!”. Ele não se virou. “Moço!”, chamei um pouquinho mais alto. Ele nem aí, continuou de costas para mim, fazendo seu trabalho. “Vai ver é surdo”, pensei. Dei uma batidinha no ombro dele, e o garoto prontamente se virou para mim. Perguntei: “Tem alface lisa?”. Ele soltou um pequeno grunhido e apontou para o próprio ouvido. Não é que era surdo mesmo?
Fiz um sinal de “tudo bem” e já ia me direcionando a outro funcionário, porém ele fez questão de me atender. Foi difícil a comunicação? Nada. Apontei para a alface crespa, fiz uma rápida mimica (peguei a alface, fiz que secava com escova, depois passava a chapinha... tô brincando, tô brincando) e feito: ele me levou até a alface lisa. Retribui dizendo “obrigada”, ele sorriu e voltou para seus afazeres, feliz por ter cumprido com sua obrigação. Isso tudo não durou nem 20 segundos.
Alface é o tipo da coisa sem gosto, mas este foi o item mais delicioso que eu trouxe pra casa naquele dia. Há alguma esperança para o mundo quando um empresário emprega um deficiente físico, delegando a ele uma função compatível com sua capacidade. Algumas pessoas escutam muito bem, e daí? Isso não as livra de serem mal-educadas e preguiçosas. O moço que não se mexeu enquanto não lhe dei uma cutucadinha era confiante, tinha boa vontade e sabia qual era o seu ofício. Não é isso que os patrões esperam de uma pessoa que precisa lidar com o público? Eu me senti não só bem atendida, como orgulhosa de ser cliente de uma empresa que não tem preconceitos e que faz sua parte. Com tanta oferta de gente jovem e saudável precisando de emprego, a tendência é preterir os candidatos que possuem alguma deficiência – e aqui vale abrir o leque e incluir também o “deficiente” que tem mais de 40 anos, a “deficiente” que tem a pele negra...
Quando alguém usa a expressão “estabelecimento de primeiro mundo”, não é com tecnologia que associo o elogio, e sim com atitude. Assim como os donos desse supermercado, felizmente há outros empresários comprometidos com ações sociais e que enxergam além das convenções, e são eles que me dão a sensação de estar vivendo num país que, afinal de contas, ainda não está totalmente perdido.
Domingo, 25 de setembro de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.